Uma análise analítico comportamental do Luto

Laís Nicolodi

Em um cenário de pandemia global, quarentena sem previsão de fim e uma curva do número de mortes por COVID-19 que não para de crescer, é comum experimentarmos alguns sentimentos aversivos que derivam da nossa sensação de incontrolabilidade, ou seja, tudo o que está acontecendo agora está fora do nosso controle. Alguns especialistas apontam que esse processo compõe uma das etapas do que seria um “luto antecipado”.

Uma das grandes estudiosas dos processos do luto, Elisabeth Kübler-Ross, propôs em seu livro em 1969 – On Death and Dying1 – um modelo para descrever os estágios do luto, que ficou popularmente conhecido como o “Modelo de Kübler-Ross”. Tal modelo descreve cinco estágios, não lineares, pelos quais um indivíduo enlutado passa. Alguns estudiosos2 tecem críticas ao modelo de Kübler-Ross por não haver comprovações empíricas que atestem que esses estágios se aplicam universalmente a todos os indivíduos de maneira precisa e exata durante o processo do luto. Tal crítica é muito bem-vinda para que nos lembremos da distinção entre as leis básicas do comportamento (Skinner, 19533) e um modelo teórico interpretativo importado de outra área de estudo.

O modelo de Kübler-Ross não tem a pretensão de ser lido como um sistema imutável de processos comportamentais precisos e exatos. Pelo contrário, por se tratar de um processo interpretativo e com viés subjetivo da autora, ele está o tempo todo passível de ser aprimorado e desenvolvido por novos teóricos. Ter esse ponto esclarecido é fundamental para se dar os primeiros passos que embasarão a análise preliminar interpretativa, aqui pretendida, para uma compreensão mais profunda a respeito do processo do luto. 

O modelo de Kübler-Ross se resume aos seguintes estágios: 1. Negação; 2. Raiva; 3. Negociação/Barganha; 4. Depressão; e 5. Aceitação4. A autora descreve que esses estágios não seguem, necessariamente na mesma ordem, igualmente para todos e que muitas vezes podem se sobrepor uns aos outros, como por exemplo, uma pessoa experienciando a fase da “negociação/barganha” pode estar ao mesmo tempo sentindo raiva ou os sentimentos que compõe a fase da depressão. Isso posto, uma leitura analítico comportamental pode nos ajudar a compreender algumas das condições por trás desses estágios durante o momento atual da pandemia da COVID-19. 

Como anteriormente mencionado, a sensação de incontrolabilidade é aversiva para os indivíduos (e inclusive para animais não humanos, como aponta Hunziker, 20055) e frequentemente produz como consequência comportamentos de esquiva. A iminência de morte, seja do próprio indivíduo ou de algum ente querido, talvez seja uma das maiores experiências que fogem do nosso controle que se possa imaginar. Por esse motivo, o primeiro estágio segue em uma direção de tentar “se proteger”, ou seja, se esquivar da condição aversiva dessa sensação do luto antecipado, traduzida no clássico: “esse vírus não é tão perigoso assim, é só uma gripezinha”; ou “esse vírus não vai chegar até mim e se chegar até mim ou minha família, não vai nos derrubar”. Podemos até levantar hipóteses sobre a função do estágio da negação (vulgo, o comportamento de negar algo) que é a de proteção e esquiva do teor aversivo experienciado durante o primeiro contato com a incontrolabilidade.  

O segundo estágio, a raiva, parece ser um desdobramento da etapa de negação. É coerente que respondentes típicos da raiva surjam contingentes à privação de todos os nossos reforçadores repentinamente. Difícil imaginar alguém que não tenha nenhum acesso de raiva quando têm seus reforçadores sociais arrancados assim de uma semana para outra. Em uma semana estamos todos com acesso irrestrito aos nossos amigos e familiares, pessoas que amamos e pelas quais somos amadas, e, na semana seguinte, somos obrigados a ficar isolados de estar fisicamente próximo dessas pessoas, até porque muitas delas (ou nós mesmos) podem se enquadrar em população pertencente ao grupo de risco. O que se observa, no entanto, é que o comportamento verbal frequentemente empregado em função dessa raiva são de respostas agressivas. Geralmente agressões verbais como: “Os governadores e prefeitos são interesseiros por visarem seus próprios interesses políticos ao nos obrigarem a ficarmos de quarentena!”; ou “Foi o maldito partido chinês comunista que desenvolveu esse vírus em laboratório e soltou no resto do mundo para que a China seja a nova potência global!” Como se observa, manifestações verbais de raiva, como as levantadas, frequentemente  direcionadas para um agente externo: o inimigo é o outro. Alguém precisa ser o culpado.

O terceiro estágio, a negociação/barganha não se refere a um estágio com contornos bem definidos porque muitas vezes esses comportamento verbais são emitidos durante a fase da raiva ou da depressão. Esse estágio descreve relatos que acobertam tentativas de conciliar os interesses entre as partes: “Ok, eu posso ficar de quarentena por um tempo, mas depois de 2 semanas tudo vai voltar ao normal e eu poderei sair da quarentena né?”; ou “Eu ficarei de quarentena durante a semana, mas no final de semana tudo bem se eu me reunir com amigos em casa, certo?”. É como se fosse uma tentativa de negociação que busca por uma síntese entre a tese da quarentena compulsória e a antítese do ambiente com reforçadores sociais. Como se o indivíduo estivesse estudando a possibilidade de um meio termo que contemplasse um ambiente menos escasso desses reforçadores sociais que fosse tolerável. Nota-se que o estágio da negociação/barganha ainda se pauta em uma perspectiva que pode ser reforçadora para o sujeito, disfarçada no fundo de uma luta para contornar a aversividade da privação de todos os seus reforçadores, ou seja, ainda observamos a esquiva.

Até que finalmente, o estágio quarto, uma das fases mais delicadas, importantes e com o verdadeiro potencial transformador: a depressão. A fase em que talvez possamos afirmar em termos funcionais como sendo a suspensão da esquiva: o sujeito entra em contato com os respondentes mais aversivos da questão. O abatimento, a tristeza profunda, a frustração, a desesperança. Em outras palavras, é a concretização do desamparo: “Não sabemos quando isso vai terminar? Não”. Esse estágio requer um olhar muito cuidadoso e sensível, porque geralmente é quando o indivíduo se permite a vulnerabilidade. E a vulnerabilidade geralmente assusta, mas ela é fundamental para uma elaboração sensível e honesta do luto. Freud usava o termo “elaboração” para se referir ao processo necessário para o luto, pois o termo inclui a palavra “labor” que significa “trabalho”. Ou seja, tudo que vinha acontecendo até então fazia parte desse “trabalho” que agora vai ganhar uma forma mais autêntica.

Eu diria que aí mora a beleza de uma escuta empática no contexto clínico, pois é na relação terapeuta-paciente que se fornecem algumas das condições que irão ensinar ao indivíduo a importância de se “dar mais espaço” para esses respondentes do estágio da depressão durante o processo do luto. A experiência de mergulhar nesses respondentes assusta porque é a certeza de que vai doer e, em termos adaptativos, embora sejamos ensinados a nos proteger da dor, entrar em contato – genuinamente – com essa dor, nesse momento, é fundamental. Em outras palavras: é importante que nos deixemos doer. 

É válido destacar que esse quarto estágio é bastante delicado, por dar margem à uma interpretação equivocada de uma suposta “romantização da dor”. Entrar em contato com a dor, de forma honesta e gentil, não é o mesmo que romantizar a dor, mas sim de se validar a existência dela. Uma invalidação do sentimento de tristeza que o indivíduo enlutado sente, pode até mesmo ser violento e gerar mais danos a longo prazo. Por isso que passar pelo estágio da depressão de forma honesta e de “peito-aberto” é tão fundamental, porque legitima a existência de um sofrimento emocional. A gente só consegue escutar algo de fato, depois que reconhecemos que ele existe e está ali. Isso feito, de forma sensível e não invalidante, o indíviduo começa a entrar no último estágio do luto, o de aceitação.

O quinto e último estágio se trata de uma longa e exaustiva elaboração de todas as etapas anteriores, que culmina no momento em que o indivíduo finalmente assume pra si: “Ok, isso está acontecendo”. Como já mencionado anteriormente, alguns estágios se sobrepõem e isso não significa que o indivíduo não emita verbalizações como essa durante o estágio 3 ou 4, por exemplo, a pessoa pode até assimilar e aceitar o que está acontecendo durante o processo de elaboração do luto, mas o momento final desse luto se dá quando ele efetivamente aceitou o caráter da incontrolabilidade da pandemia e das mortes crescentes, buscando formas de assimilar e lidar com esse cenário que escapa de seu controle.

É comum que algumas pessoas interpretem a aceitação como um estado de “apatia” na qual o sujeito não está mais em contato com nenhum de seus respondentes. Isso é um equívoco, uma vez que, toda memória da tragédia e das dores que foram vividas em decorrência de tudo que aconteceu é o que nos permite entrar em contato novamente com os respondentes (talvez, de forma mais branda à depender do tempo ou da vividez da rememoração) e são justamente eles que irão nos ajudar no sexto e último estágio, desenhado posteriormente, em 2014, por David Kessler, em co-autoria com Elisabeth Kübler-Ross no livro On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief through the Five Stages of Loss6.

Depois de mais de 40 anos da publicação original do modelo Kübler-Ross, Kessler foi um dos estudiosos sobre o luto que incrementou ao modelo original uma etapa que se desenvolve a partir do processo de aceitação, que é o de dar um sentido/significado para tudo7. No seu livro, Finding Meaning: The Sixth Stage of Grief8, ele formaliza a etapa intitulada como “os significados” para o luto.

Embora seja uma etapa desenvolvida mais recentemente, ela proporciona uma leitura muito sensível para o processo do luto de que ele não se encerraria na aceitação. Pois é a aceitação que nos permite dar um novo contorno para o sentido da nossa trajetória: Por quê sofremos com a perda de alguém? O que nos faz estar no aqui agora sentindo dor e investindo energia emocional por alguém que já nem sequer está mais aqui? Certamente, é aonde a gente dói que mais diz sobre a gente.

O processo do luto não é laborioso à toa, pois é nele que reorganizamos alguns dos nossos pilares e valores de vida. A valiosa etapa de sentir a dor e dar espaço para os respondentes de todas as fases nos permite resgatar algumas das nossas relações mais íntimas e profundas e que nos direcionam para os nossos valores: “O que nos importa de verdade?” Não é o estímulo que ficou diferente, mas é a nossa relação com ele que está se transformando e, através de uma elaboração intensa do luto, aprendemos a atribuir novos significados e sentidos pra nossa relação com a perda, tirando dela um pouco mais sobre nós mesmos: ressignificação.

Que possamos viver o luto à nossa maneira, subjetivamente, no nosso tempo e, respeitosamente. Que ao final possamos tirar disso um sentido que nos permita viver mais alinhados ao que realmente nos é importante.

Notas de rodapé:

1Tradução na edição para o português: Sobre a Morte e o Morrer

2 Stroebe, Margaret; Schut, Henk; Boerner, Kathrin (2017). «Cautioning Health-Care Professionals». Omega. 74 (4): 455–473. ISSN 0030-2228.PMC 5375020. PMID 28355991. doi:10.1177/0030222817691870

Bonanno, George A. (2019) [2009]. The Other Side of Sadness: What the New Science of Bereavement Tells Us About Life After Loss (em inglês). Londres: Hachette UK. pp. 32–34. ISBN 978-1-5416-9942-7

3 Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York, NY. Macmillan.

4 Imagem: https://static.psycom.net/wp-content/uploads/2016/03/kubler-1024×806-1.jpg

5 Hunziker, M. H. L. (2005). O desamparo aprendido revisitado: estudos com animais. 138 Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21, 131-139.

6 Tradução: Sobre o Luto e o Enlutar-se: Buscando significado no Luto nos cinco estágios da perda.

7 Entrevista no Medium: https://medium.com/@anamarcela.sa/esse-desconforto-que-voc%C3%AA-est%C3%A1-sentindo-%C3%A9-luto-b480bb4644cc

8 Encontrando Significado: O sexto estágio do Luto

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