O uso irracional de medicamentos frente à pandemia de COVID-19

Flavio Rodrigues Lopes Filho*

O medicamento é um elemento essencial no tratamento da saúde do indivíduo, entretanto, o uso inadequado é um sinal de alerta. A utilização correta de medicamentos, isto é, sob supervisão de um profissional de saúde, pode prevenir a ocorrência de reações não esperadas (reações adversas), intoxicações e até mesmo a morte.

De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, o uso racional de medicamentos é um processo que se inicia com a prescrição do remédio e vai até a chegada do medicamento ao paciente, considerando condições adequadas, como doses necessárias, intervalos pré-definidos e numa quantidade de tempo eficaz, segura e com qualidade.

A automedicação, isto é, o ato de se medicar sem avaliação de um profissional de saúde ou o diagnóstico do profissional médico, é uma prática comum e, ao mesmo tempo, arriscada. Segundo a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), 18% das mortes por envenenamento são atribuídas ao uso irregular de medicamentos e 23% dos casos de intoxicação infantil estão relacionadas a ingestão acidental de remédios. Vale ressaltar que medicamentos podem oferecer riscos à saúde, quando consumidos incorretamente ou sem a supervisão de um profissional da saúde, inclusive aqueles que podem ser adquiridos sem prescrição médica, como analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios. Estes, por exemplo, frequentemente estão associados aos casos de mortes e envenenamentos.

Diante da pandemia de COVID-19, ocasionada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), observou-se aumento do consumo irracional de medicamentos. Até este momento, não há um tratamento eficaz no combate a doença e as mortes continuam ocorrendo. Dentre os fatores que contribuem para o crescimento do índice de automedicação, nota-se que muitas pessoas estão sendo influenciadas por Fake News. Diariamente são veiculados estudos e novas medicações, que não possuem qualquer embasamento científico, contendo informações falsas a respeito de como combater o coronavírus.

No Brasil, por exemplo, foi amplamente divulgado o uso do medicamento hidroxicloroquina (ou cloroquina). Sua utilização foi incentivada, inclusive a nível federal, antes de sua eficácia ser cientificamente comprovada. Posteriormente as pesquisas revelaram que o medicamento não é efetivo no combate à doença e evidenciaram diversas reações, principalmente cardíacas, associadas ao uso da substância. Além desta, outros medicamentos como nitazoxanida e ivermectina, também passaram a ser consumidos visando combate ao COVID-19. Este cenário impulsionou a iniciativa da ANVISA em estabelecer uma legislação de controle provisório (RDC 405 de 22 de julho de 2020), impossibilitando a compra sem apresentação de receita médica.

Dado o contexto, é importante se atentar para o uso de medicamentos sem orientação médica, especialmente aquelas pessoas que possuem doenças pré-existentes e/ou que se enquadram em um grupo de risco. Uma alternativa à automedicação como estratégia de prevenção à problemas de saúde, é o estabelecimento de hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas, uma alimentação saudável e acompanhamento com profissionais de saúde. Também se faz necessário, conscientizar a população a respeito dos riscos da automedicação, de modo que este recurso seja utilizado de maneira racional, seja durante a pandemia, mas também fora dela.

REFERÊNCIAS

Bispo, Jessé Eduardo. Automedicação e os riscos à saúde em tempos de Covid-19. Escola de Educação Permanente, HCFMUSP, Sâo Paulo, 2020. Disponível em: https://eephcfmusp.org.br/portal/online/automedicacao-riscos-saude-covid19/

BRASIL, Ministério da Saúde. Cartilha para a promoção do uso racional de medicamentos. Editora MS, Brasília, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_promocao_uso_racional_medicamentos.pdf

BRASIL, RDC nº 405, de 22 de julho de 2020. Estabelece as medidas de controle para os medicamentos que contenham substâncias constantes do Anexo I desta Resolução, isoladas ou em associação, em virtude da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) relacionada ao novo Coronavírus (SARS-CoV-2). Brasília, DF, 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-de-diretoria-colegiada-rdc-n-405-de-22-de-julho-de-2020-268192342

João, Walter da Silva Jorge. Reflexões sobre o uso racional de medicamentos. Pharmacia Brasileira, v. 78, n. 1, pág. 15-16. Disponível em: https://www.cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/128/015a016_artigo_dr_walter.pdf

* Flavio é farmacêutico e pós-graduando em farmácia clínica e prescrição farmacêutica.

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